Era uma vez um rei que casou com uma jovem especial. Abandonou-a. Exilou-a em uma montanha distante. Grávida. Sozinha. Ela passou fome. Medo. Colhia bagos de jinsão (Ginseng) para matar a fome. O filho que carregava é que lhe dava ânimo.  Queria que fosse um homem justo, forte e corajoso.

Gravidez estranha. Três anos. Nasceu grande, robusto. Cara vermelha. Cresceu inteligente. Ficou ágil no arco e na flecha. A fome sumiu. Um dia demorou para voltar, o que preocupou a mãe. Mas quando o sol se punha, ele voltou com cabrito montês às costas. Prepararam o assado e conversavam. Perguntou à mãe porque não tinha pai e os bichos tinham.

Mãe – Ainda és novo para entender. Um dia te explicarei. Quando souberes caçar um tigre…  E ele treinou até conseguir caçar a fera. E quis saber…

Jovem – “Ah-ma”, quem é o meu pai?  Onde ele mora? Gostaria de dar-lhe esta pele de tigre. Já sou um bom caçador.

Mãe – Teu pai é o nosso rei.

Jovem – “Ah-ma”, não fique triste. Amanhã vou vê-lo. Vou exigir que a chame de volta.

Mãe – Vai, meu filho. Cuidado porque ele é esperto, mentiroso e mau.

Jovem – Sem medo, mãe. Sou caçador. Dias e noites de florestas, vales e montes. Quero ver o rei.

Rei – Conheço todos os bons caçadores da região. Nunca vi este rapaz de cara vermelha. Donde veio?  Alguma vez matou tigre? É habilidoso?

Jovem – Meu rei, tome esta pele. É um presente. Fui eu quem matou a fera e tirei o couro.

Rei – Que recompensa queres?

Jovem – Nenhuma. Só queria ver meu pai.

Rei – Tudo bem. Posso ajudar-te. Onde está teu pai?

Jovem – Você é meu pai. Já te conto tudo. Assim me explicou a mãe.

E o rei se assustou. Pensou que o jovem só queria fortuna. Mas ele é perigoso. Matou tigre. Vai querer vingar a mãe. Preciso liquidá-lo. Fingiu-se contente…

Rei – Estou satisfeito. Mas agora deves matar um leão. Depois disto reconhecer-te-ei como filho e mandarei buscar tua mãe.

O jovem foi à caça de um leão. Não encontrava… Um dia achou um tríplice caminho. Um subia. Outro descia. O terceiro contornava.  E um velhinho ajudou-o.

Velhinho – És corajoso. Segue o que contorna a montanha. No final encontrarás um lago. Na beira há um grande sândalo. Aí todos os dias vem beber água um grande leão. Sobe na árvore. Esconde-te bem. Apanha um galho e fica com ele na mão. Persistência.  Primeiro vêm as aves beber. Depois os animais. Não os espantes.  Só depois chega o leão. Salta-lhe a cavalo e bate-lhe com o ramo do sândalo na cabeça e dize-lhe: “Obedeces-me ou não?” E bate-lhe até ele aquiescer. Então podes deixá-lo. Sempre que precisares dele, chama-o bem alto e ele aparecerá. O moço andou sóis e luas. Chegou. Conferiu.  Tudo aconteceu: as aves… as feras… o rugido do leão… o galho… o pulo… seguro na juba… bateu e forçou o leão à obediência… E voltou a palácio. Fez-se anunciar.

Rei – Será que aquele danado matou um leão?

Jovem – Não matei. Achei antiecológico. Domei um.

Rei – Quero ver para crer. Vamos ao mato, aqui perto do palácio.

Jovem – Oi! Meu gatinho, vem cá depressa…

Rumor. Barulho. Galhos secos estalavam. Um rugido estremeceu os vidros do palácio. Pavor geral. Leão de pelo pintalgado. Boca enorme. Olhos ferozes. Juba ondulante… O rei escondeu-se atrás do filho “domador”.

Rei – Manda-o embora pelo amor de Buda. Reconheço que és meu filho. Vou buscar tua mãe.

(Mas logo que o leão sumiu, o rei também trocou de opinião).

Rei – Bem! Tu és meu filho.  Mas deves ter uma mulher bonita. E essa mulher é a filha do Rei dos Demônios. Vai buscá-la. Traze-a e faremos o casamento.  O Jovem foi… mas bem contrariado…

Jovem – Vou buscá-la. Sóis e luas… Lago enorme. Uma mulher bebia baldes e baldes de água seguidos. Puxa! Isso é fantástico! Você consegue beber todo esse lago?

Bebum – Fantástico é um caçador que consegue domar leões. Já ouviu falar?

Jovem – Esse caçador sou eu.

Bebum – Eu pago para ver…

Jovem – Vem, meu amiguinho! Cadê você?!

Bebum – Manda-o embora e serei tua escrava.

Jovem – Leva-me aonde mora o Rei dos Demônios.

Bebum – Sim, chefe! Serão sóis e luas. Muitos picos de montanhas… Olha à frente. Vês aquele gigante que põe os pés de um monte até outro?

Jovem – Meu irmão gigante. És poderoso! Com uma passada atinges o outro monte

Gigante – Isso não é nada. Ouvi dizer que há um caçador que é capaz de domar leões. Isso é inacreditável!

Bebum – É esse o tal domador de leões. É o meu senhor.

Jovem – Galho de sândalo… Um rugido aterrador… O leão mostrou a cara.

Gigante – (Agarrou Jovem e Bebum, levantou-os para o alto). Manda-o para a floresta e eu serei teu servo.

Jovem, Bebum e Gigante foram para a direção do Rei dos Demônios. Sóis, luas… picos e mais picos…  Acharam uma jovem seteira (flecheira) com arco de ouro. Olhava para o céu aguardando qualquer coisa.

Jovem– Que estás a olhar?

Arco de Ouro – Há cinco dias disparei uma flecha para o ar, a “Apolo Um”. Até agora não caiu…

Jovem – Puxa! Que força!

Arco – Isso não é nada. Ouvi dizer que há um caçador que doma leões. Isso sim é fantástico.

Gigante – Oh! Mestre! Faze aparecer o bicho para que ela reconheça o teu poder.

Jovem – Sândalo… chamado… um rugido… leão terrificante.

Arco de Ouro – Manda-o embora. Serei tua serva.

E os quatro foram ao palácio de Rei dos Demônios… luas, sóis, picos e montanhas. Chegaram ao anoitecer. Portão fechado. Esconderam-se para dormir. Não conseguiram dormir. Como combater o Rei dos Demônios? Como raptar a filha dele?

Jovem – Ouço corvos conversando… Vou escutar sua fala… O macho diz que estes quatro viajantes são poderosos. Vêm matar o Rei dos Demônios. Ficaremos livres. Haverá paz! E a fêmea diz que nós queremos raptar a Filha dele, mas que não a conhecemos. O macho diz que ela é bonita. Tem a marca “OM” na testa e “HUM” no peito da blusa. Todas as manhãs ela sai para pegar água. Alô, companheiros, vamos. Distribuir tarefas. Escondamo-nos. Eu fico no roseiral perto da entrada. Já está amanhecendo. Pássaros cantam. Quatro moças com selhas (baldes) de madeira. A última, bela, jovem… “OM” e “HUM”. Agarrada. Gritou de medo.

Rei dos Demônios – Ouço gritos. O que está acontecendo?

A seteira Flecha de Ouro acertou uma flechada no peito do RD e o prostrou, sem chances.

Bebum – Tragou de uma bocada os demoninhos todos. Os grandões também.

Gigante – Ajuntou o Jovem, a Arco, a Bebum e a Filha do Demônio e o leão debaixo do braço. A cada passada, uma montanha para trás… Rapidinho estavam no palácio real paterno… nada de sóis ou luas de demora.

Rei – Meu santo Buda! Você conseguiu?  Bzzz.  mas recuso-me a cumprir a palavra. Tenho outros motivos para não concordar… Esse é um país à beira do abismo… não pode parar.

Jovem – Isso não é palavra de rei: Gigante, arrase o palácio. Arco de ouro, flecha no peito do rei.                                Bebum, engula estes incompetentes ministros…  Agora, eu sou o Rei. Filha do Demônio é a Rainha. Gigante, vai buscar minha mãe. Leão, serás o guarda real… andarás sempre pelas florestas vizinhas. Gigante, serás o correio real, rápido e eficiente.  Bebum, chefe do Departamento de Águas.   Seteira, ministra das Forças Armadas e Pesquisas Espaciais.

E o povo viveu feliz. Sem perseguições e nem injustiças. “Ninguém nunca não nada” imaginou que pudesse ter odores de corrupção naquele país. Rei e Rainha, palácio e povo, uma só felicidade. A palavra das pessoas valia por documento. Foi feita a reforma política com base na opinião do povo. “OM MA NI PAD ME HUM” é uma invocação tibetana contra os maus agouros.