Perdeu o pai quando neném e a mãe quando criança. Vagabundeou pela vida como um cão. Fome, frio, pancadas… “Sai daqui, porco sujo”. Retirou-se ao frio e ao escuro da floresta. Sem agasalho, à chuva. Animais ferozes e medo… mas mais livre do que na selva de pedras.

Na mata muitos mosquitos. A pele cheia de marcas, cicatrizes e feridas. Coceira. Encostou uma folha no rosto para refrescar-se. Percebeu que também as pernas, os braços… melhoravam com aquele contato.

Viu-se bonito. E o tempo passava. Cresceu como bicho de mato. Brincou com uma folha e esfregou-a nos lábios. Estes incharam… devia ser uma urtiga O nariz virou algo parecido com focinho de porco. Desesperado rolou, chorou. Lembrou dos pais e da vida de bicho. Agora que poderia voltar ao convívio da cidade, mais um desprazer… E o tempo continuou a passar.

Um dia pegou uma folha e passou-a no nariz e este voltou ao normal. Era aquela medicinal. Começou a andar pelo bosque. Achou um corvo morto. Passou-lhe a folha medicinal sobre o corpo e ele reviveu.

Corvo – No futuro hei de proteger-te.

Tigre – Obrigado. Sou um tigre intoxicado e morto. Ajudar-te-ei no futuro. Salvaste-me de graça. Gratuitamente vou socorrer-te se precisares. E assim curou um urso, um javali, alguns pavões…

Yan Ran – A folha é preciosa. Não posso perdê-la. Vou curar pessoas. Sinto fome e sede, linda menina. Estou sujo mas não sou mau.  Tem dó. Estou com muita fome.

Mocinha – Entra. Sou a segunda filha de um príncipe. Tu és órfão. Passaste fome. Vou preparar-te um arroz (= delicadeza). Aguarda aqui.

Príncipe – Quem és tu? Que fazes aqui dentro?

Yan Ran – Vim pedir abrigo.

Príncipe – Fora daqui, fedorento, cão imundo… jaguara,  ladrào!

Yan Ran – Saio enxotado. Sinto o sangue ferver… vou achar alguém que me acolha. Lá há uma casa pequenina, uma velhinha… cega… Posso ficar em sua casa esta noite?

Velhinha – Podes, mas não olhes a sujeira. Preparo-te um restinho de arroz que possuo. És órfão. Eu sou viúva. Conta-me tua história.

Yan Ran – Havia anos que não comia mais arroz. Que bom! Já lhe contei minha história. Agora me ajoelho ante a senhora e lhe peço que me adote por filho.

Velhinha – Não. Aqui todos falam mal de mim. Tu sofrerias mais. Procura uma mãe que tenha olhos…, boa fama…

Yan Ran – Não. Eu fico com a senhora. Trabalharei. Protegê-la-ei. Serei seu filho.

Velhinha – Levanta-te. Serei tua mãe. Deixa-me apalpar teu rosto, abraçar-te…

Yan Ran – (Dormiu como um anjo. Ao acordar foi encontrar a mãe atrás do galinheiro, sentada, chorando). O que foi que aconteceu? Ah! As galinhas foram mortas por um graxaim!?  Não chore mais. Vou fazê-las voltar à vida. E a senhora também vai enxergar. Espere um pouco. A folha… Beleza! (E a vida começou a melhorar para os dois). Um dia os dois voltavam do campo. Encontraram gente chorando. Explicaram que a segunda filha do  príncipe  morrera. Daí a tristeza.

Yan Ran – Mamãe, se me deixarem casar com ela, vou ressuscitá-la.

Velhinha – Filho, deves devolver-lhe a vida. Ela nunca foi como o pai. Nem como a irmã. Ela me dava farinha, cereais, vinha me visitar. É uma carícia… Eu vou falar com o pai dela e comunico as condições.

Príncipe – Isto é fácil. Chama teu filho. Está permitido.

Yan Ran – Vou com minha folha milagrosa. Princesa minha, acorda e vive. Tu és aquela que me atendeu e… o pai me expulsou de casa… Após o benefício, o pai relutou. Opôs empecilhos. Chamou os príncipes pretendentes a casar com ela. Instigou-os contra Yan Ran, chamando-os de frouxos, derrotados por um pé-rapado… E os jovens se queimaram. Provocaram-no para uma luta.

Yan Ran – Bem, princesa. O barraco está armado. Eu amo você. Sei que você também me ama. Mas eu sou um plebeu, órfão e pobre. Posso achar uma moça da minha classe. E você pode ficar livre para casar com um desses nobres pretendentes. Encerramos o noivado, certo?!

A princesa, porém, não concordou. Declarou-lhe que não queria outro… E os pretendentes iam chegando, provocavam, queriam invadir o recinto e o  príncipe “impedia-os”…  Como resolver o impasse?

Yan Ran – Subo ao terraço. Chamo “Corvo”, “Tigre”, “Urso”… está na hora… Auxílio! Socorro!

E os bichos reconhecidos vieram. Os pavões abriram a cauda e fizeram um círculo protetor ao redor da mocinha. Tigres e ursos urraram. E os valentões escorregaram.

Príncipe –  Bem! Com esta pressão… Eu também concordo plenamente com o casamento.

Yan Ran – Casou com a princesa sorriso. Perdoou os concorrentes e o pai. Convidou todos para os festejos. Foi buscar sua mãe mal falada, a tal velhinha ex-cega… agora respeitada. A vida ia transcorrendo bela e serena. Yan Ran curava  quem precisasse com a tal folha milagrosa. Ele era habilidoso e`ela faceira. Mas, A irmã mais velha ficou com ciúmes daquele bem-estar. Queria roubar aquela folha. Seria tão feliz como a irmã.

Princesa1 – Minha querida irmã, quantas saudades tenho de ti! Olha. Meu marido está   doente. Nada o cura.  Empresta-me a folha. Logo devolvo.

Princesa 2 – Não posso. Meu marido o Yan, ralhará.

Princesa1 – Puxa! Vais deixar teu cunhado morrer?!  Ficaste sem coração?!

Princesa 2 – Toma. Vai. Restitui-lhe a saúde. Depois traze-me de volta a folha milagrosa.

Mas a lua viu aquela falsidade. Desceu e tirou-lhe a folha. O povo ficou furioso. Expulsou a princesa 2 da cidade. Yan Ran e  sua princesa ficaram consternados com a perda.

Yan Ran e a esposa – Vamos à Lua buscá-la de volta.  Mas é muito alto. Cada dia mais tristeza. Muitos doentes morrem sem remédio. As filas aumentam diante das portas do palácio.  Os aldeões fizeram longa escada de bambu. Encostaram a ponta na Lua. Um cão corajoso subiu até lá. E quando ele chegou lá, as formigas brancas corroeram as bases da escada… e ela caiu. O cão não pôde voltar e entrou em discussão com a Lua. Comeu-lhe o filho com uma bocada só.

E quando a Lua está grávida, cheia ou nova, o cão lhe dá outra mordida e tira um bocado até os dias de hoje. Por isso a lua perde a barriga a cada quarto de cheia. Yan Ran e sua princesa foram à floresta à procura de outra folha. Até hoje não chegaram.

E o cão prisioneiro está lá, com saudades da Terra. De vez em quando ele chora e uiva. Os cães da terra têm ouvido sensível, ouvem o choro dele, ficam com pena do companheiro aprisionado na lua, olham para cima e respondem com seus uivos.