Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão
Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói…

Sim, é a letra de Raul Seixas, da música “Trem das 7” que fez muito sucesso. E pode ser também a letra da realidade dos moradores que vivem ao lado dos trilhos que passam por dentro de Joinville, mais precisamente entre os bairros. Isto afeta o Centro e, principalmente, a região Sul de Joinville.
O Jornal da Cidade esteve na casa de moradores que relataram como é viver ao lado do trilho do trem, com a questão do barulho e da falta de segurança.
O morador Pedro Mathias mora desde 1973 ao lado do trilho, próximo à Rua Monsenhor Gercino. São 45 anos de moradia, em que Pedro relata ter vivido momentos de apreensão. O barulho sempre foi uma marca registrada, destacou, e a pergunta continuar no ar: quando isto será resolvido? O apito do trem ainda persiste, pelo menos, três vezes ao dia. Algo que, de certa forma, passou a ser parte do cotidiano de Pedro e sua família. Porém, ele alerta que outro problema grave existe na comunidade dos trilhos: a falta de segurança. Como se trata de uma área afastada da rua e pouco movimentada, o medo de assaltos e outros tipos de violência são diários. Ele lembra que anos atrás a situação era bem pior. Com o desenvolvimento da cidade, as áreas foram ficando mais habitadas, mas mesmo assim, hoje, ainda merece cuidados. “Minha casa tem grades, cachorro e sempre estou atento. O mesmo ocorre com meus vizinhos, tanto que alguns ficam por algum tempo, mas depois mudam”, relatou.
Pedro também cita que a passagem dos trilhos deixa um rastro de problemas: resto de alimentos. São grãos de soja e de outros alimentos que ajudam na proliferação de ratos e baratas. Ninguém realiza a limpeza, já que é uma área isolada, e sobra para os moradores.
E ainda, outro problema com a passagem do trem: as rachaduras. “O trem faz tudo tremer em casa. Daí surgiram as rachaduras em alguns pontos da casa. Isto é em toda a rua”, comentou.
Ele espera que um dia os trilhos sejam retirados e a frente de sua casa se torne uma rua comum, o que ajudaria na segurança, valorização de sua casa e até mesmo para melhorar o trânsito de Joinville.

Mais reclamações

Pedro Mathias: falta de segurança na casa que é cercada

A moradora Terezinha Tobler está a 50 metros do vizinho Pedro Mathias. Ela vive também com a mesma preocupação sobre a parte de segurança. Como sua casa não tem muros altos, a apreensão é grande para a moradora. “Realmente a parte de segurança preocupa. Sabemos que ficamos isolados aqui”, comentou. Sobre o barulho, disse que já se acostumou, e que até estranha quando o trem demora a passar. “Acostumei, mas sei que o problema não é o barulho, mas a segurança. Espero que algo seja feito neste sentido”, observou.

Limpeza da área
O casal Marli e Valdir Correia já está há anos morando no local. Estão acostumados com o barulho do apito do trem, sabem que falta segurança, mas reclamam principalmente da questão de limpeza e da falta de atenção dos motoristas. É nít

Lixo acumulado em vários pontos

ido que muitas pessoas jogam lixo no local, como se fosse um depósito. Conforme a reportagem constatou, até mesmo aparelhos domésticos são descartados no local. Marli revelou que na questão de atenção dos motoristas, acredita que acidentes podem ocorrer em breve. “Eu observo que alguns motoristas não prestam atenção. Não olham, não ouvem e passam reto. Assim, teremos o risco de um grave acidente”, alertou.

Onde estão as cancelas?

Cancela: só existe uma placa para alertar os motoristas

Justamente o alerta de Marli se refere às cancelas em vários pontos de Joinville. Já ocorreram muitos acidentes de motoristas que não ouviram o apito do trem e passaram reto. Foram atingidos pelo trem, e até mesmo mortes já foram registradas. Muito se fala em instalar as cancelas, mas nada de concreto até o momento.

Contorno Ferroviário
E para resolver toda essa questão, a solução seria o Contorno Ferroviário, ou seja, a retirada

Alerta: Os trilhos ficam com restos de grãos

dos trilhos do Centro e bairros de Joinville. O orçamento de tal obra hoje estaria em torno de R$ 40 milhões a R$ 60 milhões. Porém, segundo os deputados federais Marco Tebaldi e Mauro Mariani, a obra ainda está sendo analisada dentro da possibilidade do orçamento da União. É uma obra federal, logo, depende do governo federal. A obra que objetiva retirar os trilhos da área urbana de Joinville, Jaraguá do Sul e São Francisco do Sul para construir novos nas áreas rurais desses municípios está parada desde julho 2011. Na época, o solo onde estava sendo construído o trilho, próximo à Curva do Arroz, em Joinville, cedeu. Com o problema, surgiu a necessidade de se refazer o projeto. E, agora, com a crise financeira, não existe qualquer projeção para retomada desta proposta. Conforme o Departamento Nacional de Infraestrutura (DNIT), é necessário refazer também todo o processo de licitação.

STF julgará caso de horários de trem
Quem vem ou vai para a região Sul de Joinville já deve ter passado momentos de “espera e irritabilidade” no trânsito. Isto se deve à passagem de trens, por trilhos que cruzam partes movimentadas da cidade. Diante disso, foi criado um projeto pelo vereador Odir Nunes, que depois virou lei, sobre os horários dos trens. A citada Lei Municipal disciplina a passagem ferroviária em horários de pico, no perímetro urbano de Joinville entre 6h e 8h, entre 11h30 e 13h30, e das 17h às 19h. A norma chegou a vigorar em parte de 2015, mas em 2016, a Rumo, empresa com a qual a ALL se fundiu, conseguiu liminar na Justiça Federal de Porto Alegre, e derrubou a lei municipal. A Rumo lembra que só a União pode legislar sobre serviços ferroviários. A empresa também alega que a frota de veículos de Joinville quase dobrou em dez anos. Neste caso, a concessionária esclarece que problemas com a mobilidade urbana devem ser tratados por um conjunto de políticas de transporte. Ainda, que cada trem é equivalente a 100 caminhões a menos nas estradas.

Prefeitura entrou com ação
Diante desta decisão, a Prefeitura de Joinville, por meio da Procuradoria Municipal, entrou com recurso para derrubar a liminar no Supremo Tribunal Federal. A Procuradoria entende que a Lei é legítima e visa a segurança dos motoristas joinvilenses. Ainda, segundo informações da Procuradoria, não é o fato da alegação de que somente a União pode legislar sobre assuntos ferroviários que colocará a segurança e o respeito da comunidade de Joinville em segundo plano. Existe a questão do tempo de espera nos horários de picos que prejudica sensivelmente as pessoas que necessitam trabalhar, de um atendimento médico e outros compromissos. Além disso, é a questão dos riscos de acidentes, já que os trens passam por dentro da cidade em locais extremamente populosos. O caso ainda não tem data para ser julgado em Brasília. Vale lembrar que pela lei municipal, em caso de não obediência nos horários, a multa foi fixada em 100 UPMs, sendo 10% do valor arrecadado destinado para a educação no trânsito.