Era uma vez um velho pobre e sábio. Quatro filhos e duas filhas. O filho mais novo era bom. Ficava junto do pai e bebeu-lhe muita sabedoria.  “Mais vale sofrer mil tormentos que passar a vida a adular os grandes. Mais vale desprezar as riquezas e conservar a sua própria liberdade”.

O velho adoeceu e caiu de cama. Os filhos mais velhos nem deram bola. Vendiam todos os bens para ir a farras e folias e pagar as drogas. O pai ficou mais abatido e, percebendo a proximidade do fim, chamou o mais novo.

Pai – Eu vou morrer. No dia seguinte ao meu enterro, um mendigo vai ter com você. Dá-lhe alguns pães. Se ele não aceitar, dá-lhe dinheiro. E se não aceitar dinheiro, oferece-lhe a irmã mais velha em casamento.  No segundo dia, outro mendigo, mesmo proceder e ofereces a segunda irmã. E no terceiro dia, vai ao jardim, remove as cinzas do forno. Acharás um punhal, única herança que teus irmãos não esbanjaram. Nunca te separes do punhal. Nas dificuldades conseguirás tudo com ele. E o velho morreu e o funeral consumiu as últimas economias.

E tudo aconteceu como o Pai predissera. Vieram os mendigos e as irmãs se foram para bem longe. A casa desleixada. Abandonada. O jovem partiu levando apenas seu punhal. Vida errante. Sóis e chuvas, montanhas e vales. Pobre, não conseguia comprar pão. Fome tinha muita. Viu padaria.  Morrer de fome, não. Foi trocar o punhal por pão.

Lao Si – Sr. Padeiro, sou órfão. Venho de longe. Tenho fome. Sem dinheiro. Não aceitaria este punhal em troca de um “nang”?

Padeiro – Deixa-me ver. Feito o negócio.

Lao Si – Devoro o pão. Vou ao regato e bebo. Procuro trabalho

Padeiro – Mulher, coloco o punhal na gaveta. Será útil. Notaste quantos fregueses?! Hoje está rendendo

Lao Si andou  procurando e não achou serviço. Voltou. Sentou-se na escada da padaria. Via o casal contando dinheiro.

Padeiro – Pena que nós não temos filhos. Se os negócios forem como hoje… precisaríamos de um empregado…

Mulher – Olha, ali na escada está o moço do punhal, convida-o para trabalhar. É órfão. Parece bom. Vamos adotá-lo?!

Lao Si – Chamo-me Lao-si. Aceito. Que querem que eu faça?

Padeiro – Toma o punhal. Vai trabalhar com os aprendizes.

E a padaria progrediu. Lao Si sossegou.. Oito anos se passaram. Adulto. E a mãe adotiva pensou em casá-lo. Encarregou os colegas de descobrir qual era seu tipo de preferência.

Lao Si – Amanhã eu respondo. Vou pensar.

Era o dia de “Djouma”, dia santo dos muçulmanos. A princesa “Sayoum Nadjouk”, filha do imperador, nesse dia passeava pelos jardins do palácio. Quem a espiasse, morreria. Lao Si esqueceu de fechar a porta para não vê-la.

Lao Si – Que linda! Só com ela me casarei. Digam isso à mamãe. Se não for assim morro solteiro. Digam a ela que vá falar com o Imperador.

Pais – Nós não somos nobres. Só pobres padeiros. Levaremos pães, ovelhas… Iremos junto com autoridades. Haverá audiência. Lá estaremos…

Imperador – Que desejam? (E uma autoridade explicou ao imperador)

Autoridade – Majestade, este casal de padeiros tem um filho que ama sua filha.

Imperador – Basta! Retirem-nos! Cortem a cabeça deles.

Vizir – Um momento, Majestade. Sua filha está em idade casadoira. Qualquer homem tem o direito de pedi-la em casamento. Se manda decapitar o padeiro, o povo o considerará tirano. Ninguém mais ousará pedi-la em casamento. Mande o padeiro realizar coisas impossíveis. Se não realizar, enforque-o então. Será normal.

Imperador – De pleno acordo. Seja assim mesmo. Boa ideia!

Vizir – O Imperador é bondoso. Amanhã acontece o casamento. Mas a condição é de que, antes da aurora, sobre o rio, esteja pronta uma ponte sem pilares. Na outra margem haja uma floresta cheia de flores e com pássaros a cantar e frutos maduros. No meio do jardim, um palácio de jade com pavimento de ouro e varandas cheias de almíscares. O caminho que liga o jardim ao palácio deve passar pela floresta e pela ponte e coberto por tapete único de cores reluzentes. Quando tudo estiver pronto, vem buscar a princesa e leva-a  para morar nesse paraíso. Celebraremos o casamento. Se até a aurora não estiver pronto, terão todos a cabeça esmagada. Saiam daqui já!

Padeiro – Não vou falar com a mulher e nem com Lao-si. Amanhã vou sozinho para a morte.

Lao Si – Pai, há coisa estranha com o senhor. O que é?

Padeiro – Digo-te a verdade… Todos choraram.

Lao Si – Vou achar um jeito. Sento-me na cama e medito. Vejo um velho de barbas brancas, apoiado a um cajado…

Velho Barbas Brancas – Que tens? Posso ajudar-te? Conta o problema.

Lao Si – Bom velho, salva-nos.

VBB – Calma! É muito fácil. Lembra-te do punhal paterno…

Lao Si – Não sei como se usa.

VBB – Quando tiveres uma dificuldade ou quando quiseres algo, enterra-o no chão e canta estes versos:.“Meu punhal, ó meu punhal,como és sábio e poderoso! Sempre que me surge um mal, teu auxílio é valioso”.

Depois expõe o que pretendes… e está feito o negócio. Fácil, não?!?

Lao Si – Obrigado. Vou ao jardim com o punhal. Até o cabo! Digo o verso. Faço o pedido. Repito o que o Vizir disse. Concentração. Já! Meus pais, não chorem. Está tudo resolvido. Vejam e creiam. Vamos cedo ao palácio do imperador.

Imperador – Então, por acaso vieram buscar a princesa?

Padeiro – É. Seu modesto pedido está satisfeito. Confira.

Imperador – Vizir, vá conferir.

Vizir – Tudo perfeito. Pedido executado. Pode entregar a filha.

A Corte fez quarenta dias e quarenta noites de festa.

Lao Si – Contratou uma aia para Sayoum que todos os dias a penteava.  Ia caçar com o Imperador e o Vizir. Felicidades mil na China. Mas, chegou a palácio um rico mercador. Soube do casamento.

Mercador – Lao deve ter um talismã. Vou espiar. Olha a princesa. Ah! Já estou apaixonado. Juro que vou raptá-la. Amanhã vou vender flores. Aia foi comprar. Ó velha aia, tão velha e ainda  trabalha como empregada? Se você me ajudar, dar-lhe-ei muito dinheiro e viverá sua vida em paz.

Aia – Que devo fazer?

Mercador – Traga-me o talismã do filho do padeiro e o seu segredo.

Aia – Dentro de uma semana.

PRIMEIRO DIA:  Aia penteava os cabelos da princesa….

Aia – Parece-me que seu marido não é muito sincero consigo… Se ele fez este prodígio numa só noite, é porque tem um talismã. Se ele a amasse mesmo, teria dito.

Sayoum Nadjouk – O que posso fazer?

Aia – Hoje à noite converse com ele. Se ele contar é leal.

Lao Si – Por que tão pensativa? Sentada na cama? Fale!

Sayoum – Desde que nos casamos, não me contou…etc., etc…

Lao Si – Herança paterna, punhal … …palácio. Tome-o.

SEGUNDO DIA:

Aia – Lao Si vos deu esse punhal. Não foi honesto. Não contou o segredo…

Sayoum – Espero.  Ele deve ser leal. Acho que esqueceu…

Lao Si – O que está havendo agora?

Sayoum – Sim, e como posso utilizá-lo?

Lao Si – Fincá-lo no chão e dizer o verso, assim, depois etc.

Sayoum – Por que você não me disse antes? Agora estou tranquila.

TERCEIRO DIA:

Sayoum – A aia vem me enfeitar. Provo-lhe que Lao Si é fiel. Disse-me tudo…

Aia – Agora podeis dizer que ele é fiel, que vos ama. Escondei bem o punhal.

Sayoum – Ninguém mo roubará. Coloco-o debaixo do travesseiro dele. Agora vamos passear.

SÉTIMO DIA:

O comerciante chegou. Sayoum foi tirar sua sesta após o almoço. Aia, com pé de lã, entrou no quarto, pegou o punhal. Saiu e entregou também as dicas.

Mercador – Até o cabo: “Punhal, leva-me a mim, a linda princesa e a este jardim, para… deixa de fora esta aia, velha chata.  (Foi mais rápido que ligeiro).

Sayoum acordou da sesta. Viu o comerciante sentado a seu lado.

Mercador – Querida, graças a tua aia agora és minha. Enquanto dormias transportei-te para cá. Estamos aquém da Montanha de Gelo e do Mar de Fogo. Teu marido não nos alcançará jamais. Mas vê bem: Eu sou melhor do que ele!

Sayoum – Eu confirmo. Gostei de você. Agradeço-te.

Lao Si – (Enquanto isso…) Vou para casa. Estou com saudades da princesa… Mas, o que vejo?!  Não vejo meu palácio! O meu punhal… Não o tenho…Compreendo.  Lembro que ontem lhe falei do segredo. Ela me traiu.

Imperador – Soube que minha filha sumiu. Por que estás chorando? O palácio? Jardim? Amarrem Lao-si e joguem-no no rio.

Lao Si  boiou no rio por um mês. Os braços e pernas separaram-se-lhe do corpo. E um dia o vento forte o empurrou para a margem à frente de uma cabana. E uma jovem senhora o encontrou. Teve pena. Recolheu-o e Lao voltou a si. Conversaram e ele contou sua história. Ela ouvia calada.

Irmã 1 – Você é o meu irmão. Sou sua irmã mais velha. Casada com o primeiro mendigo indicado a você por nosso pai… Lembra? Meu marido é o Rei da Montanha de Gelo. Ele é bom. Eu sou feliz. Todos os dias ele vai à caça. Volta ao pôr-do-sol. Está para chegar. Escondo-te atrás da porta. Não gosta de me ver com estranhos. Vou falar com ele para te ajudar. Quando ele chega surge um vento forte. Mas não te assustes. Ele é o Rei dos Demônios da Montanha de Gelo.

RDMG – Venho com uma gazela nas costas. Sento-me. Os criados preparem a gazela. Quero jantar.  Percebo um cheiro estranho dentro de casa.

Irmã 1ª – É meu irmão que está aqui. Aquele que permitiu nosso casamento.

RDMG – Por que está escondido? Apareça.

Irmã 1ª- Vou buscá-lo. Ei-lo.

RDMG – Agora que sei de tua história vou mandar os criados buscarem teus braços e pernas lá no rio. Ficarás curado.

Lao Si – Cunhado, podes ajudar-me a encontrar meu palácio, a esposa…

RDMG – Já vi teu palácio com os jardins. Eu estava caçando… Fica atrás da Montanha de Gelo, do lado de lá do Mar de Fogo. Não é possível chegar até lá.

Lao Si – Eu vou chegar até lá, sim senhor. Custe o que custar.

RDMG – Pois, vejamos. Farei o possível. Toma o meu sabre. Com ele ninguém te impedirá de atravessar meus domínios. Atrás da montanha, um bosque, depois um desfiladeiro. Na encosta, à esquerda, um ninho com dois filhotes de águia. Aí perto, numa caverna, uma jiboia que vai tentar comer os dois filhotes. Mata-a. A águia disse: “Se um dia os meus filhotes estiverem em perigo, recompensarei quem os salvar”. Como recompensa pedir-lhe-ás que te leve ao teu jardim, pra lá do Mar de Fogo. Andando mais um pouco, divisarás teu paraíso perdido.

Gazela assada, jantaram. Dia seguinte, a partida. Caminho difícil, íngreme. Bosque. Desfiladeiro. Sóis e luas sempre sob nevoeiro. Lado esquerdo. O ninho. Com cuidado observou. Ouviu um silvo. Viu a jiboia prestes a engolir o primeiro filhote e a águia desesperada revoando, os filhotes aflitos… Ligeiro sabre voltejou no ar e decepou a cabeça da víbora.

Águia – Tu és o nosso salvador. Como posso te agradecer?

Lao Si – Quero ajuda. Preciso ir até meu jardim para recuperar meu bem querer, o sentido do meu viver. Ao lado de lá do Mar de Fogo. Leva-me, por favor

Águia – Mas podemos morrer carbonizados… Mas prometi. Vamos. Sobe. Segura este saco de couro cheio de carne. Quando eu gritar “carne”, pega um pedaço e coloca-o em meu bico. Atenção:  Por mais que te custe, não te queixes nunca. Tudo pronto? Vamos. Viagem aérea. Altitudes. Chamas. Fogo. Fumaça. Calor. Sofrimento. “Carne”. Mais dez dias de voo. Aterrissando… Chegamos. Isto é, vai sempre em frente. Chegarás ao teu paraíso procurado. Adeus! “Carne” e Boa Sorte!. Estou com saudades dos meus dois filhotes.

Lao Si andou por sóis e luas seguidos. uma cabana. Pediu água. Uma jovem senhora trouxe uma malga que ele esvaziou em dois goles.

Irmã 2ª – Quem és? Donde vens? Para onde vais?

Lao Si – Conto-te minha história.

Irmã2ª – És meu irmão mais novo. Sou a mulher do segundo mendigo… Casei com RDMF, o rei  dos  demônios da Montanha de Fogo. Sou feliz. Ele me ama. Vai à caça, vento e chegando. Vou pedir que te ajude a recuperar o punhal do papai. Castigarás aquela malvada. Como vai nossa irmã? Esconde-te.

RDMF – Preparem o veado que matei. Aqui tem cheiro estranho.

Irmã 2ª – É meu irmão, aquele do nosso casamento. Ah!

RDMF – Estas terras ao redor da Montanha de Fogo pertencem-me.  É fácil. Ensino-te três “ayats”(versos do Corão). Segue para oeste. Chegarás logo. Verás o palácio de brilhos. Dize o primeiro verso do Corão e te transformarás em pombo. Vai e pousa dentro do jardim. Fala o segundo e serás gato. Entra em casa. O punhal está no mesmo lugar. Agarra-o e volta para o jardim. Terceiro verso e voltarás ao normal.

Ensinou-lhe os versos do Corão. Jantaram.  E no dia seguinte

Lao Si – Ciao, mana. Adeus, Cunhadão. Para Oeste. O Sol, o jardim, pombo, gato, quarto conhecido, travesseiro,  O  punhal!!!, gato, jardim… Até o cabo e com muita raiva. Os “Dois pombinhos” vão acordar longinho daqui… “Leva meu jardim, o palácio, os dois amantes, a mim, para onde estávamos no tempo da sinceridade e da felicidade”.  Agora tranco a alcova com os dois dentro.  Chamo o Imperador, o  vizir. Eles acordarão. Que surpresa!

Imperador – Sinto-me ultrajado. Atem os dois atrás de dois cavalos xucros. Acuados por muitos cães ferozes e famintos. Morte é recompensa para eles. Lao-si, foste honesto. Corajoso. Valente. Serás meu novo Grão Vizir.

Lao Si – Lembrou do pai e dos versos: “

Alá proteja o imperador e seu vizir. “Mais vale sofrer miltormentos do  que passar a vida a adular os grandes.Mais vale desprezar as riquezas E conservar a própria liberdade”.

Lao Si – Não aceito o cargo de Grão Vizir. Serei trabalhador e livre. Acharei meus pais padeiros.    Nunca mais longe de meu punhal. Acharei meus irmãos. Visitarei minhas irmãs. Serei feliz na simplicidade.